Filme que transforma a vida, vida que transforma o filme
Em 1997, durante as filmagens da série de TV
“Som da Rua”, sobre músicos anônimos, o diretor
Roberto Berliner conheceu as irmãs Regina, Maria e Conceição.
Como elas já não cantavam mais nas ruas, não possuíam
mais os ganzás, sem os quais não se sentiam a vontade
para cantar. Enquanto a produção providenciava novos instrumentos,
a equipe teve oportunidade de conversar longamente com as três.
A filmagem para o programa foi realizada, mas Roberto deixou o set tão
impressionado com o que viu e ouviu, que decidiu que as três ceguinhas
seriam o tema de seu próximo filme.
Alguns meses depois, Roberto voltou ao nordeste com o roteirista Maurício
Lissovsky e uma câmera digital, para uma série entrevistas
que serviriam de base para elaboração do roteiro. Com
o apoio do Ministério da Cultura, este material de pesquisa serviu
de base para a edição de um curta-metragem, que serviria
ainda como laboratório de linguagem para uma obra de maior fôlego.
O curta “A pessoa é para o que nasce” , com seis
minutos de duração, foi lançado em 1998 e ganhou
muitos prêmios, no Brasil e no exterior.
Partiu-se então para a produção do longa-metragem.
As primeiras filmagens ocorreram ainda em 1998 e, no ano seguinte, com
o apoio do Itaú Cultural e do Jan Vridjman Fund, fundação
ligada ao maior festival de documentários do mundo, o IDFA, elas
puderam ser intensificadas.
A repercussão da série Som da Rua, bem como do curta A
Pessoa é para o que nasce, fez com que a música da três
irmãs cegas de Campina Grande chegasse aos ouvidos de Nana Vasconcelos
e Gilberto Gil, curadores do Percpan. Foram convidadas para participar
do festival como “artistas profissionais”, recebendo cachês
pelas três apresentações que fizessem, em Salvador
e São Paulo, em meio às diversas atrações nacionais
e internacionais. Diante de tal reviravolta na vida de nossas personagens,
decidiu-se interromper a edição e filmar estas apresentações.
Depois de mais de um ano sem vê-las, registramos a primeira, e
até hoje única turnê das “Ceguinhas de Campina
Grande”, como foram chamadas pela imprensa.
As duas últimas sessões de filmagem aconteceram em 2002
e 2003, visando apreender que transformações esta efêmera
celebridade teria produzido em suas vidas. Foram feitas, em sua maioria,
com equipamento doméstico, pelo próprio diretor, praticamente
sem qualquer assistência. Indicam assim, a nosso ver, aquilo que
é a essência da atividade do documentarista: o registro,
sempre arriscado, de uma expedição tripulada em direção
ao outro.
